O total de MNSRM dispensados nas farmácias foi de 33 milhões (em número de embalagens) e 188,1 milhões de euros (em valor).
Os MNSRM apresentam variações sazonais ao logo do ano, mas naquele período, a classe terapêutica dos antitússicos e expectorantes foi a mais dispensada em valor, seguida dos anti-inflamatórios musculares e dos redutores de cicatrizes.
Microlax, Ilvico N, Voltaren Emulgel, Mebocaína, Cêgripe foram as embalagens mais dispensadas nas farmácias.
Desde a liberalização da venda de MNSRM fora das farmácias, em 2005, que tem havido um aumento do consumo. É curioso observar que o número de farmácias tem-se mantido estável - cerca de 2700 - mas, em contrapartida, o número de espaços de saúde praticamente duplicou entre Janeiro 2008 e Junho 2009 - mais de 200 estabelecimentos - e o número de parafarmácias também aumentou - perto de 400.
Suzete Costa, directora do CEFAR, aponta dois factores que podem ajudar a explicar a tendência crescente da automedicação nos últimos anos: «O aumento da oferta e o crescente empowerment dos cidadãos que, cada vez mais, querem ter maior poder de decisão e controlo sobre a sua saúde.»
Carlos Martins, vice-presidente da APMCG (Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral), considera esta evolução positiva. O médico de família não encara a automedicação como uma "perda de poder" para a sua classe. Uma medicina mais centrada na pessoa como um todo, que começou a surgir na década de 80, mudou a relação entre profissional de saúde e doente: «Essa evolução caminhou no sentido de uma consulta médica muito mais partilhada, as pessoas têm cada vez mais informação relacionada com a saúde, o que faz com que se sintam mais à vontade para usar a automedicação.»
«Na medicina familiar, ao trabalharmos com um paciente em continuidade, treina-se essa capacitação e dialoga-se com as pessoas sobre o que podem fazer pela sua própria saúde em determinadas circunstâncias, quando não podem estar com o seu médico. Isso só traz benefícios para todos, para o paciente acima de tudo», acrescenta.
Aquele responsável da APMCG diz que, hoje em dia, é prática comum o médico informar a pessoa sobre os fármacos que pode tomar em certos casos: «Dizer-lhe que, quando tiver dores de cabeça ou febre, pode tomar este ou aquele medicamento mas não outro, ajuda as pessoas a compreenderem o que podem fazer com segurança e, aí, temos uma automedicação controlada.»
Suzete
A ajuda de um farmacêutico na selecção da opção terapêutica mais adequada é preciosa em certos casos. «O farmacêutico, profissional de saúde treinado na área do medicamento na sua formação de base, tem um papel importante na dispensa de um MNSRM, cabendo-lhe um papel importante ao ajudar à automedicação responsável, minimizando o risco e maximizando o benefício», frisa.
A toma de medicamentos, seja em automedicação ou não, tem sempre riscos associados. É da avaliação do benefício/risco que resulta a decisão da toma de um medicamento.
Quais os riscos associados à automedicação? «Há mais probabilidades de haver um maior risco para a saúde, para determinadas situações menos "comuns" ou situações em que o indivíduo apresenta factores de risco ou contra-indicações - que desconhece por ser leigo na matéria - e que seriam identificadas por profissional de saúde. Ou quando o indivíduo opta por um medicamento que não é adequado ao problema de saúde que apresenta», avisa Suzete Costa.
Um medicamento de venda livre tem uma margem de segurança relativamente superior à de outros e um menor risco de efeitos secundários, principalmente se for tomado por pessoas saudáveis. Contudo, não convém esquecer que estamos a falar de medicamentos. E todos têm a possibilidade de produzir algum efeito adverso. Os indivíduos que têm um risco maior de poder sentir efeitos indesejáveis com os MNSRM são os que se encontram debilitados, como os idosos ou os que têm problemas de saúde crónicos. «Essas pessoas têm de ter mais cuidado e idealmente não usar a automedicação sem primeiro conversarem com os seus médicos», alerta Carlos Martins.
Sintetizando, sublinha-se uma série de "ses" a ter em linha de conta no que diz respeito à automedicação responsável: se é uma situação aguda iniciada há pouco tempo, se parece ser uma afecção menor e transitória que pode ser resolvida com MNSRM, se não houve agravamento dos sintomas, se o doente não apresenta factores de risco adicionais ou contra-indicações, se não é polimedicado ou não está sob terapêutica crónica complexa, se não é uma criança ou indivíduo muito idoso e se não é doente com problemas hepáticos ou renais.
A duração da terapêutica depende do medicamento em causa, mas se a situação não for resolvida no espaço de três a cinco dias é importante ser visto pelo médico.
Sílvia Júlio