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Revista Família Cristã
Dezembro 2006
Sociedade
A missa do galo
CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO
 

O Natal assinala o nascimento do Menino Jesus em Belém. Por tradição, associamos esta época à família, afinal o nascimento de uma criança é sempre motivo de reunião e celebração. Mas onde nos devemos reunir para dar as boas-vindas a Cristo? A FAMÍLIA CRISTÃ convida os leitores a uma visita à casa do Senhor na noite de Natal.

Uma lareira, uma mesa farta e a família reunida são indissociáveis da noite de Natal. Habituámo-nos a chamar a esta, a festa da família e ao Natal, um estado de espírito, «quando o homem quiser». Mas o que é o Natal? De uma forma muito simples, o nascimento de Cristo. E o que celebramos no Natal? A solidariedade, a união, a família? A resposta é, novamente, o nascimento de Cristo. E onde é a casa do Senhor? No nosso coração? Certo. No coração dos homens? Certo. Mas a casa a que nos referimos é a igreja. E qual é a ceia do Senhor? A que fazemos em nossa casa ou a que fazemos na casa Dele?

A missa do galo é, das missas de Natal, aquela que mais está ligada ao momento do nascimento de Cristo. Na noite de 24 para 25 de Dezembro, aproximadamente à mesma hora em que José e Maria viam o seu filho pela primeira vez. «Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento em todo o Império. (…) José (…) subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de David, chamada Belém, na Judeia, para se registar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto e Maria deu à luz o seu filho primogénito. Ela enfaixou-O e colocou-O numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.» (Lc 2, 1-7)

É este o motivo da celebração do Natal pelos católicos e apenas isto. Como explica o cónego Luís Silva, ainda que possa parecer frio ou que desperte polémica, é preciso coragem para se dizer isto: «O Natal não é a festa da família nem a expressão de “sempre que o homem quiser”; não! É a celebração do nascimento do Senhor. Quem não tem fé não celebra o Natal, celebra uma festa, uma reunião familiar», o que for, mas não o Natal.

História e tradição

A tradição da missa do galo só aparece no início do século v d.C; a própria tradição do Natal só aparece nessa altura; até lá, a única celebração da Igreja era a Páscoa. «A centralidade da Liturgia está na Páscoa, por isso, o Natal não começa logo no século i. A Igreja começou a celebrá-lo não como algo distinto da Páscoa, mas como o início do caminho, a aurora da salvação; digamos que é o primeiro andamento da grande sinfonia da Páscoa», explica o cónego Luís Silva.

A escolha do dia 25 prende-se com uma convenção da própria Igreja, uma vez que não é possível determinar a data exacta do nascimento de Cristo. Além disso, na altura tentava substituir rituais pagãos por cristãos e adaptava o seu calendário à vivência de Roma. O dia 25 era considerado pelos pagãos como o dia do Sol (coincide com o solstício de Inverno); para os católicos, Deus é a luz do mundo, daí, também uma possível associação a este dia.

Como explica o nosso entrevistado, o Natal «é a única celebração do calendário litúrgico que contempla quatro missas, a da vigília, a da noite, a da aurora e a do dia». Destas quatro missas, a da noite (do galo) é a que «reúne a celebração do mistério de Cristo, acentuando os aspectos históricos e humanos do Seu nascimento. Se nos põe em confronto com o humano, acentua os pequenos pormenores, dos pastores, da gruta. Estes aspectos remetem para a grandeza do mistério; Deus entra sem espalhafato numa gruta, de noite, para ser o coração da História». É pela celebração do mistério do nascimento que a missa do galo ocupa um lugar central no Natal dos católicos. A sua celebração, muito ligada à vida de Roma, «terá começado na basílica erigida no monte Esquilino, dedicada a Nossa Senhora. Começou a querer viver-se nesse templo o episódio passado em Belém, o nascimento de Cristo, durante a noite, numa gruta. Daí ter adquirido a designação litúrgica de missa da noite (e não do galo), no momento próximo ao do nascimento do menino», continua.

O cónego Luís Silva faz uma comparação que ilustra bem a importância desta Eucaristia na noite do Menino e de nos dirigirmos à casa de Deus. «Celebrar o Natal sem ir à missa do galo é como comer bacalhau sem azeite»; come-se, mas não sabe bem.

 

Rita Bruno