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Revista Família Cristã
Dezembro 2006
Família
Medo do escuro
Ó PAPÃO VAI-TE EMBORA
 

A luz do dia esconde medos que apenas se revelam à noite. Na escuridão, os fantasmas andam à solta e inquietam a hora de dormir. Saiba como mandar o papão embora, lá de cima do telhado; para deixar dormir o menino um soninho descansado.

É uma noite longa de Inverno. Está frio lá fora. O vento, que entra pela fresta da janela do quarto, sopra assustador. A mãe veste o pijama do Noddy ao Tiago. Já é hora de dormir. Deita-o na cama e dá-lhe um beijinho de boa noite. Apaga a luz. Ouve-se o som do interruptor que põe o mundo do Tiago às escuras.

Na escuridão do quarto imagina cenas dignas de um filme de terror de Hollywood. Debaixo da cama e dentro dos armários estão seres estranhos que lhe querem fazer mal. O Tiago está assustado. Acredita que é pura realidade o que a sua imaginação vê. Sente um medo descomunal e desata a gritar pela mãe.

Este episódio nocturno é comum em muitas famílias na hora de dormir. As crianças costumam sentir medo do escuro, medo do misterioso, medo do desconhecido, medo de um ruído estranho.

Segundo T. Berry Brazelton, um conceituado pediatra norte-americano, os medos surgem quando os mais pequenos tomam consciência dos seus próprios sentimentos agressivos, tornando-se também receosos da agressividade por parte de outras pessoas e situações. À medida que sentem que estão a evoluir e a tornar-se mais independentes, precisam também de sentir receios que os impeçam de ir demasiado longe. O medo do escuro, dos fantasmas e das bruxas verifica-se naquelas fases em que a criança está a tornar-se rapidamente mais independente; ao mesmo tempo que toma consciência da sua dependência dos pais, e isto envolve-a num conflito.

 

Aprender a lidar com o medo

 

O receio do escuro trata-se de uma fase normal do processo de crescimento. O medo da escuridão faz parte do desenvolvimento infantil e surge normalmente a partir dos dois/três anos, desaparecendo sensivelmente aos cinco. «O medo do escuro pode constituir-se como organizador para a criança aprender a lidar com a ausência e o desconhecido, no fundo para progressivamente se autonomizar das figuras parentais. Medo do escuro evoca o desconhecido, o que está escondido e o que não se vê  é sempre mais aterrador do que aquilo que se vê. Ao analisar os medos na criança é fundamental ir ao encontro da sua história individual, bem como ao encontro dos medos da matriz familiar na qual está inserida», diz Maria João Moutinho, psicóloga clínica do Gabinete de Apoio Psicológico e Aconselhamento (GAPA) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

Expressões do género «se não te portas bem vem aí o papão buscar-te» ou «dorme, se não vem aí o papão» são de evitar. Ao utilizá-las, os pais «justificam e intensificam medos arcaicos, personificados por figuras parentais ansiogénicas que podem agredir ou retaliar a criança», explica a psicóloga.

Ensinar a criança a lidar com o medo é um desafio interessante que remete os pais para os medos da sua infância, por vezes esquecidos ou recalcados, outras romanceados. Provavelmente o que mais angustia os pais é colocarem no medo da criança os seus próprios receios, enfatizando assim o da criança, acabando por dificultar o crescimento dos filhos. Esta especialista aconselha os pais a agirem de uma forma natural, aceitando e compreendendo o medo de uma forma tranquila e atenta, assegurando à criança que não foram invadidos pelo seu medo e que a podem proteger. Não devem desvalorizar a situação nem sobrevalorizá-la. «Seria bom que os pais lidassem com isto de uma forma lúdica, transmitindo à criança que ela mesma pode enfrentar os seus medos e ultrapassá-los, por exemplo “mandar o medo embora”, “soprar o medo” ou ter um boneco que a proteja dos medos. Usar o imaginário infantil é um desafio fantástico que urge viver com as nossas crianças», sugere Maria João Moutinho.

 

Sílvia Júlio