«A Ave-Maria é sempre a primeira oração que nos ocorre para tudo; por isso, é também o grito mais rápido que podemos enviar ao coração de Deus.»
A oração da Ave-Maria é o grito dos pecadores e dos miseráveis. É o grito mais fácil, mais rápido e mais confortante que se possa fazer. Mais fácil, porque no povo cristão é uma oração muito simples (ainda que totalmente bíblica), a primeira que se aprende logo no berço e que continuamente nos vem aos lábios, em todas as circunstâncias. No fim da vida, geralmente, é também a última oração que um agonizante ainda consegue dizer. A Ave-Maria é sempre a primeira oração que nos ocorre para tudo; por isso, é também o grito mais rápido que podemos enviar ao coração de Deus. Em terceiro lugar, é a oração mais confortante, porque está no coração de todos, dos santos e dos pecadores. Todos eles são filhos de Deus (e de Maria!). Por isso, sentem-se sempre todos confortados, quando este grito lhes aflora aos lábios, porque todos sabem, como uma criança, que estão a ser ouvidos, por Deus que é Pai e por Nossa Senhora, que é mãe!
A primeira parte
A primeira parte desta oração que resume todas as orações públicas da Igreja dirigidas a Maria é a mais antiga; é toda bíblica e culmina no nome de Jesus. Está quase a indicar que esta fórmula, na qual invocamos a Santa Mãe de Deus, nos enche a boca e todo o nosso ser de Jesus, o único filho de Deus Salvador. A sua estrutura indica precisamente uma grande verdade cristã: Maria é aquela que nos dá Jesus, o Salvador! É a primeira imagem ou sinal da Igreja, a qual existe, como Maria, para nos dar Jesus.
Até a o Senhor é convosco são palavras puras pronunciadas por um arcanjo admirável, totalmente evangélicas, inspiradas, reveladas por Deus. Logo a seguir temos: bendita sois Vós entre as mulheres. Estas são palavras também evangélicas. São palavras ouvidas na casa de Zacarias e de Isabel, mãe de João Baptista. As duas primas quando se abraçaram sentiram grande emoção pela santificação que se dava no ventre e no espírito de Isabel. O seu filho, João, que estava para nascer, foi aí santificado pela presença de Maria e também pelo seu Filho que Ela secretamente levava no ventre. Mas Isabel sentiu-O. E foi então que exclamou: Bendita és Tu entre as mulheres; tenho a dita de receber a Mãe do Senhor; bendita és porque acreditaste (Lc 1,40-45).
Antes desta afirmação, não esqueçamos outra que ainda não comentámos: cheia de graça! Esta expressão significa: mulher plena do Espírito Santo (a graça é um atributo do Espírito de Deus), mulher santa, bem-vista e valorizada por Deus, cheia da qualidade de vida divina!
Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus: esta frase é também um eco bíblico. «Felizes os peitos que te alimentaram». Neste ponto a oração chega ao seu vértice superior, ao seu vértice mais excelso. A invocação do nome de Maria e das suas propriedades conduz-nos todos a Jesus. A devoção a Maria não é impeditiva do culto devido a Cristo, nem a mariologia nos desvia de uma cristologia elevada e correcta. Per Mariam ad Jesus: esta breve oração, e só nesta sua primeira parte, explica muito bem e claramente a força desta verdade: por Maria vai-se até Jesus!
Esta primeira parte da Ave-Maria é a mais antiga. Foi formulada nos círculos monásticos e deve-se certamente aos Cistercienses. Na Idade Média era já conhecida popularmente.
Mas o povo cristão não parou e quis arranjar uma segunda parte igualmente admirável. Em pleno século xvi já estava formulada a segunda parte da Ave-Maria, e com os portugueses foi levada a todo o orbe na aventura dos Descobrimentos, sendo a oração mais frequente nas naves. Mas foi só no século xviii que a oração da Ave-Maria começou, toda inteira, a ser a oração mais usada pelo povo cristão. Também em Portugal, e hoje em dia, esta deve ser a oração mais comum e a mais usada.
A segunda parte
A segunda parte começa com a invocação da «Toda-Santa». A santidade de Nossa Senhora é reconhecida por todos devido ao facto de Ela ser a «Mãe de Deus», ou seja, a Teotokos (em grego) − dogma cristão ecuménico, porque aceite por todas as Igrejas, depois que foi definido na cidade de Éfeso no ano 431. Depois de nos lembrarmos da santidade da Virgem, evocamos a divina maternidade. «Mãe de Deus» é o título maior e mais importante da Virgem de Nazaré. Santidade e maternidade divina são duas afirmações, teologicamente muito importantes, que vêm na segunda parte da Ave-Maria.
A seguir vem a intercessão: rogai por nós pecadores. Aqui se revela e se sente que estamos perante uma oração de intercessão universal, por todos os homens, «porque Deus a todos colocou sob o pecado, para de todos se compadecer», afirma S. Paulo em Rm 11,32.
Agora e na hora – é estupenda esta nomenclatura do tempo: agora e na hora – da nossa morte. O tempo é assumido; o nosso tempo é resgatado através desta intercessão da SS.ª Virgem.
Pe. Mário Santos