Escolher entre o sossego rural de Provence e o ambiente tenso vivido em Londres nos grandes centros financeiros é uma decisão que vai influenciar o futuro do protagonista. O amor vai facilitar essa escolha.
Conhecido sobretudo por filmes com uma elevada densidade de acção, Ridley Scott, aos 68 anos, faz uma profunda viragem na sua carreira com Um Ano Especial. Ultrapassados os terrores de Alien, as fantasias futuristas de Blade Runner e a violência dramática de Gladiador, temos agora a paz das extensas vinhas da região de Provence, em que um eficiente corretor de Londres se vê mergulhado, por herança de um tio, nas recordações de uma infância cheia de um convívio são e de alegria. E este corretor é, em adulto, Russell Crowe, bem melhor do que o terrível gladiador do filme de 2000.
Sendo o protagonista um londrino da alta finança – mesmo que tenha tido uma infância em França – e as vinhas alvo do seu interesse e adquiridas por herança situadas numa região rural, o principal interesse do filme não poderia deixar de residir no choque de culturas ou, mais ainda, na tentativa de fusão entre a cultura da infância e a do presente. Esta análise é feita de uma forma inteligente e muito suave, se bem que pudesse ter ido mais longe em termos de profundidade. Muitos aspectos importantes são abordados superficialmente, o que se reflecte de uma forma muito marcada na fase final da narrativa, em que a componente
Sendo Ridley Scott um cineasta com grande experiência, não deixou de tirar o melhor partido dos campos de Provence, especialmente das vinhas, bem alinhadas e de grande beleza, que acabam por ser a razão de viver para diversos dos intervenientes, desde o herdeiro ao vinhateiro contratado, que encara a possível venda dos terrenos como a morte da sua relação com o campo.
Além do bom trabalho de Russell Crowe, o filme conta com vários apontamentos curiosos, mercê do louvável contributo de actores conscientes e bem dirigidos. Por um lado temos o vinhateiro Francis Duflot, a que Didier Bourdon empresta características muito específicas e de profundo sentido humano, enquanto a sua mulher, Ludivine Duflot, permite à actriz Isabelle Candelier um papel com muito humor, que traz em si mesmo uma boa ligação entre as diferentes mentalidades que se confrontam.
Por tudo isto, Um Ano Especial vê-se com muito agrado e sem qualquer esforço.
Francisco Perestrello