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Revista Família Cristã
Março 2010
Nacional
Idosos enganados
Vítimas da inocência
 
Apresentou-se como "doutor" da Segurança Social. Anunciou-lhe que a reforma ia aumentar 20%, mas que os euros iam sair de circulação. Alexandre Freitas, oitenta anos, ainda hesitou, mas lá acabou por lhe entregar os dez molhos de notas de mil euros cada. Quando foi buscar o bilhete de identidade, o burlão desaparecera com o dinheiro. Aconteceu em Lamardacos, no concelho de Chaves, mas histórias como esta repetem-se um pouco por todo o país.

São geralmente indivíduos simpáticos, educados e bem vestidos, chegam em carros topo de gama e fazem-se passar por funcionários de instituições credíveis, como os Correios ou a Segurança Social, e, sob a promessa de ajuda, acabam por convencer os idosos a entregar-lhes dinheiro. Os famosos contos do vigário, cada vez mais rocambolescos e convincentes, repetem-se, sempre "ajustados à realidade" e tendo em conta a fragilidade do idoso. O euro que vai acabar, o cartão de isenção nas farmácias, o programa "Super Idoso" que garante mais 25 por cento na reforma, a recolha dos acertos nas contas da luz ou do gás, o filho que está endividado e precisa de ajuda.... Mas também há promessas de crédito fácil, vendas de electrodomésticos e entregas de encomendas, que exigem um adiantamento ou um pagamento antecipado.

Os alvos destas burlas são quase sempre idosos, na maior parte dos casos residentes em locais recatados e pouco povoados do interior do país. Vítimas fáceis pelo isolamento, inocência e boa fé, mas também pela falta de hábitos de segurança (os idosos continuam a confiar em desconhecidos e a guardar os valores em casa) e de informação. Resultado: em escassos minutos, podem desaparecer as poupanças de uma vida.

Como o caso recente de três indivíduos reformados, com idades entre os sessenta e seis e os setenta e quatro anos, que vivem juntos em Feitos, Barcelos, e que foram burlados por dois falsos funcionários da Segurança Social, a quem entregaram 72 500 euros em dinheiro em troca da promessa de remodelação da casa em que vivem, construída há várias décadas em pedra, tijolo e madeira. Os idosos não sabem ler nem escrever e recebiam a pensão em cheque, que trocavam por dinheiro no comércio local e guardavam depois em casa. «Ficaram com tudo o que juntámos a vida inteira.»

Ânsia de ganhar dinheiro

«As burlas mais graves acontecem no interior do país, onde as pessoas estão mais isoladas», confirma o tenente-coronel Pedro Costa Lima, porta-voz da GNR. O que não significa que este tipo de crimes não ocorra nas grandes urbes. «Só que aqui, a burla é diferente», diz, destacando «que nas cidades acontecem sobretudo pequenos furtos», quase sempre movidos pela «ânsia de ganhar dinheiro».

Isabel Baptista, oitenta e dois anos, viúva, residente na Ajuda, em Lisboa, foi vítima de um destes contos do vigário. Um rapaz «muito simpático» bateu-lhe à porta a dizer que vinha da parte da vizinha de cima. «Disse-me que vinha entregar uma encomenda para a minha vizinha e que ela tinha pedido para eu lhe pagar os 40 euros», conta, algo constrangida. E antes que tivesse tempo de lhe fazer qualquer pergunta, «ele ofereceu-se logo para lhe telefonar». Pegou no telemóvel, simulou umas quantas perguntas e respostas e «eu nem tive tempo para falar», recorda. A verdade é que a convenceu e segundos depois tinha o dinheiro na mão (em troca de um soutien de qualidade duvidosa). Dinheiro que Isabel nunca chegou a receber pois, quando percebeu que tinha sido

enganada, ficou tão envergonhada que acabou por não contar à vizinha o que sucedera.

Uma rua mais acima Maria dos Anjos, setenta e oitos anos, porteira, foi vítima de uma história semelhante. Uma senhora «muito bem vestida» tocou-lhe à porta para lhe entregar uma «encomenda» da inquilina do 3.º andar, dois pares de calças de ganga de «marcas muito boas». «Disse-me que ela não estava e que lhe tinha pedido para eu ficar com as calças; acreditei... e paguei os 75 euros. Percebi mais tarde que era tudo mentira... Não só a minha vizinha estava em casa naquela altura, como não tinha encomendado nada!»

Alice dos Santos, setenta e oito anos, residente em Campo de Ourique, Lisboa, teve melhor sorte. «Bateu-me à porta um homem a dizer que o meu filho, que na altura estava fora em trabalho, precisava urgentemente de 400 euros e que lhe tinha pedido para ele me vir pedir o dinheiro.» Alice estranhou e pediu para esperar uns minutos. «Fui ao quarto e liguei para a minha nora a perguntar o que tinha acontecido. Ela disse-me logo que era mentira, que o meu filho estava bem, que ainda há pouco tinha falado com ele, e que me estavam a tentar enganar... Ele deve ter percebido ou ouvido a conversa porque quando voltei à porta já tinha desaparecido!»

Acções de prevenção

Os casos sucedem-se, mais ou menos graves, mas, curiosamente, a GNR tem registado um número cada vez menor de ocorrências deste tipo. O ano passado foram sobretudo os distritos de Coimbra (com vinte e dois casos) e do Porto (dezassete) os principais alvos dos meliantes mas, em comparação com 2008, verificou-se uma "pequena redução" no número de casos registados, revela o tenente coronel Costa Lima, atribuindo este facto às campanhas de sensibilização que têm sido levadas a cabo com o intuito de "despertar" os idosos para o problema. Admite que, em muitos casos, as pessoas «nem chegam a apresentar queixa, por vergonha» mas não considera que este seja o principal motivo do decréscimo de ocorrências. «A verdade», sublinha, «é que as pessoas estão mais alerta e nós mais presentes.» 

A propósito, cita o programa especial do Ministério da Administração Interna  «Apoio 65 - Idosos em Segurança», no âmbito do qual são realizadas pelas forças de segurança diversas acções de prevenção e sensibilização. «A GNR realiza durante todo o ano inúmeras acções em toda a sua zona de acção», ao mesmo tempo que «efectua e mantém actualizado o levantamento dos locais isolados onde habitam idosos», dados esses que são, sempre que necessário, «disponibilizados a outras entidades, como por exemplo os Conselhos Locais de Acção Social».

Nas acções de sensibilização levadas a cabo pela GNR (nas juntas de freguesia, centros comunitário, cultural ou de dia, mas também porta-a-porta) são transmitidos conselhos e abordados temas como segurança em casa e na rua, burlas e contos do vigário, notas falsas e férias seguras. Actividades que, salienta o porta-voz da GNR, têm como objectivos «garantir o reforço da segurança e apoiar os idosos que vivem isolados; conhecer a situação dos idosos na zona de acção da Guarda; sensibilizar adequadamente os idosos para os diferentes tipos de criminalidade que sobre eles incidem com maior frequência e garantir as condições para que se sintam protegidos».

 

Helena Araújo