São geralmente indivíduos simpáticos, educados e bem vestidos, chegam em carros topo de gama e fazem-se passar por funcionários de instituições credíveis, como os Correios ou a Segurança Social, e, sob a promessa de ajuda, acabam por convencer os idosos a entregar-lhes dinheiro. Os famosos contos do vigário, cada vez mais rocambolescos e convincentes, repetem-se, sempre "ajustados à realidade" e tendo em conta a fragilidade do idoso. O euro que vai acabar, o cartão de isenção nas farmácias, o programa "Super Idoso" que garante mais 25 por cento na reforma, a recolha dos acertos nas contas da luz ou do gás, o filho que está endividado e precisa de ajuda.... Mas também há promessas de crédito fácil, vendas de electrodomésticos e entregas de encomendas, que exigem um adiantamento ou um pagamento antecipado.
Os alvos destas burlas são quase sempre idosos, na maior parte dos casos residentes em locais recatados e pouco povoados do interior do país. Vítimas fáceis pelo isolamento, inocência e boa fé, mas também pela falta de hábitos de segurança (os idosos continuam a confiar em desconhecidos e a guardar os valores em casa) e de informação. Resultado: em escassos minutos, podem desaparecer as poupanças de uma vida.
Como o caso recente de três indivíduos reformados, com idades entre os sessenta e seis e os setenta e quatro anos, que vivem juntos em Feitos, Barcelos, e que foram burlados por dois falsos funcionários da Segurança Social, a quem entregaram 72 500 euros em dinheiro em troca da promessa de remodelação da casa em que vivem, construída há várias décadas em pedra, tijolo e madeira. Os idosos não sabem ler nem escrever e recebiam a pensão em cheque, que trocavam por dinheiro no comércio local e guardavam depois em casa. «Ficaram com tudo o que juntámos a vida inteira.»
Ânsia de ganhar dinheiro
«As burlas mais graves acontecem no interior do país, onde as pessoas estão mais isoladas», confirma o tenente-coronel Pedro Costa Lima, porta-voz da GNR. O que não significa que este tipo de crimes não ocorra nas grandes urbes. «Só que aqui, a burla é diferente», diz, destacando «que nas cidades acontecem sobretudo pequenos furtos», quase sempre movidos pela «ânsia de ganhar dinheiro».
Isabel Baptista, oitenta e dois anos, viúva, residente na Ajuda, em Lisboa, foi vítima de um destes contos do vigário. Um rapaz «muito simpático» bateu-lhe à porta a dizer que vinha da parte da vizinha de cima. «Disse-me que vinha entregar uma encomenda para a minha vizinha e que ela tinha pedido para eu lhe pagar os 40 euros», conta, algo constrangida. E antes que tivesse tempo de lhe fazer qualquer pergunta, «ele ofereceu-se logo para lhe telefonar». Pegou no telemóvel, simulou umas quantas perguntas e respostas e «eu nem tive tempo para falar», recorda. A verdade é que a convenceu e segundos depois tinha o dinheiro na mão (em troca de um soutien de qualidade duvidosa). Dinheiro que Isabel nunca chegou a receber pois, quando percebeu que tinha sido
Uma rua mais acima Maria dos Anjos, setenta e oitos anos, porteira, foi vítima de uma história semelhante. Uma senhora «muito bem vestida» tocou-lhe à porta para lhe entregar uma «encomenda» da inquilina do 3.º andar, dois pares de calças de ganga de «marcas muito boas». «Disse-me que ela não estava e que lhe tinha pedido para eu ficar com as calças; acreditei... e paguei os 75 euros. Percebi mais tarde que era tudo mentira... Não só a minha vizinha estava em casa naquela altura, como não tinha encomendado nada!»
Alice dos Santos, setenta e oito anos, residente em Campo de Ourique, Lisboa, teve melhor sorte. «Bateu-me à porta um homem a dizer que o meu filho, que na altura estava fora em trabalho, precisava urgentemente de 400 euros e que lhe tinha pedido para ele me vir pedir o dinheiro.» Alice estranhou e pediu para esperar uns minutos. «Fui ao quarto e liguei para a minha nora a perguntar o que tinha acontecido. Ela disse-me logo que era mentira, que o meu filho estava bem, que ainda há pouco tinha falado com ele, e que me estavam a tentar enganar... Ele deve ter percebido ou ouvido a conversa porque quando voltei à porta já tinha desaparecido!»
Acções de prevenção
Os casos sucedem-se, mais ou menos graves, mas, curiosamente, a GNR tem registado um número cada vez menor de ocorrências deste tipo. O ano passado foram sobretudo os distritos de Coimbra (com vinte e dois casos) e do Porto (dezassete) os principais alvos dos meliantes mas, em comparação com 2008, verificou-se uma "pequena redução" no número de casos registados, revela o tenente coronel Costa Lima, atribuindo este facto às campanhas de sensibilização que têm sido levadas a cabo com o intuito de "despertar" os idosos para o problema. Admite que, em muitos casos, as pessoas «nem chegam a apresentar queixa, por vergonha» mas não considera que este seja o principal motivo do decréscimo de ocorrências. «A verdade», sublinha, «é que as pessoas estão mais alerta e nós mais presentes.»
A propósito, cita o programa especial do Ministério da Administração Interna «Apoio 65 - Idosos em Segurança», no âmbito do qual são realizadas pelas forças de segurança diversas acções de prevenção e sensibilização. «A GNR realiza durante todo o ano inúmeras acções em toda a sua zona de acção», ao mesmo tempo que «efectua e mantém actualizado o levantamento dos locais isolados onde habitam idosos», dados esses que são, sempre que necessário, «disponibilizados a outras entidades, como por exemplo os Conselhos Locais de Acção Social».
Nas acções de sensibilização levadas a cabo pela GNR (nas juntas de freguesia, centros comunitário, cultural ou de dia, mas também porta-a-porta) são transmitidos conselhos e abordados temas como segurança em casa e na rua, burlas e contos do vigário, notas falsas e férias seguras. Actividades que, salienta o porta-voz da GNR, têm como objectivos «garantir o reforço da segurança e apoiar os idosos que vivem isolados; conhecer a situação dos idosos na zona de acção da Guarda; sensibilizar adequadamente os idosos para os diferentes tipos de criminalidade que sobre eles incidem com maior frequência e garantir as condições para que se sintam protegidos».
Helena Araújo