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Viver com verdade

Segunda-Feira, 07 Novembro 2011
Sílvia Júlio
Sílvia Júlio
Jornalista

Agora, vivemos com mais verdade. Sem as ilusões que os sucessivos pinóquios políticos foram criando ao longo dos anos. E não me refiro apenas a uma cor partidária.

Insuportáveis. A palavra pertence ao presidente da República que afirmou que os próximos tempos podem ser insuportáveis, em especial para os reformados e desempregados.

O que se vai passar a seguir com os nossos idosos e com os filhos dos desempregados é, para já, uma incógnita – mas não é muito difícil prever que, se não houver solidariedade e união entre os portugueses, como lembra Cavaco Silva, o futuro estará comprometido.

Não faço parte da legião dos profetas da desgraça que anunciam que não há solução. Que chegámos a uma situação insustentável – e não conseguiremos sair dela. Não é preciso ser um perito em Economia para perceber que a vida é feita de ciclos, de altos e baixos, de avanços e recuos... É certo que recuámos bastante, nos últimos tempos, e já não temos o mesmo nível de vida. Mas, agora, vivemos com mais verdade. Sem as ilusões que os sucessivos pinóquios políticos foram criando ao longo dos anos. E não me refiro apenas a uma cor partidária.

Viver com verdade é ter a consciência de que não podemos viver acima das possibilidades para aparentarmos um estatuto que não temos; viver com verdade é saber que não podemos desistir de procurar o melhor para nós (mesmo que isso implique uma revolução na nossa vida); viver com verdade é manter a força anímica para continuar a procurar a criatividade e a reinventar diferentes soluções para sairmos de todas as crises; viver com verdade é não ter medo de dizer verdades (mesmo que sejamos olhados de soslaio); viver com verdade é ter a humildade de procurar ajuda quando já não somos capazes de vislumbrar mais caminhos; viver com verdade é ajudar os que precisam sem que a mão esquerda saiba do que se faz.

Quem está em condições de poder ajudar, faça o favor de contribuir, por exemplo, para o Fundo Social Solidário, criado pela Igreja. Se os mais frágeis da sociedade não tivessem este e outros apoios, que não vêm do Estado, o país poderia já ter batido naquele nível de vida semelhante ao vivido pelos nossos avós que comiam batatas com batatas – e quando havia...

Ainda há dias falava com algumas pessoas que viveram aqueles tempos e diziam, aflitas, que sentem estar a voltar àqueles tempos, que parecem estar a viver o mesmo filme da vida real duas vezes – e receiam que os filhos e os netos passem por aquilo.

Só a união e a solidariedade dos portugueses pode evitar aquele desfecho. Tenhamos coragem para assumir o que se está a passar e viver com verdade.

Por fim mas não menos importante, tenhamos igualmente coragem para exigir a quem nos governa que seja verdadeiramente justo nos cortes – e não faça de conta que está a cortar no essencial...

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