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A peste do desemprego

Sexta-Feira, 05 Abril 2013
João César das Neves
João César das Neves
Economista

O único tipo de emprego sólido é aquele que satisfaz necessidades reais das populações, melhorando o bem-estar e assim gerando valor.

O desemprego é, sem dúvida, o elemento mais doloroso da crise atual. Portugal vive neste momento com taxas de 17%, quase o dobro do máximo histórico anterior, os 9,9% de 1986. O problema não é só nosso, mas é uma questão central das sociedades atuais. Ao longo dos séculos nunca a humanidade sofreu de falta de ocupação, mas precisamente do oposto. Foi a era da abundância que, pela primeira vez, confrontou a terrível chaga da inatividade.

Este elemento fornece uma primeira pista para compreender o que nos aconteceu. O que falta não são empregos, mas empregos que as pessoas queiram. O país continua cheio de imigrantes que se dedicam às tarefas que os portugueses, mesmo desempregados, desdenham. Por exemplo, a taxa de desemprego na agricultura é inferior a 3% e até tem descido ultimamente, enquanto o desemprego total aumenta.

O segundo elemento é a diferença fundamental entre emprego e trabalho, e entre este e produção. É possível ter emprego sem realmente trabalhar e esforçar-se sem nada produzir. Foi precisamente o excesso destas situações nos últimos anos que nos trouxe à crise. O único tipo de emprego sólido é aquele que satisfaz necessidades reais das populações, melhorando o bem-estar e assim gerando valor. Ao longo das últimas duas décadas, e ainda hoje, muita gente ganhou bom dinheiro em atividades ociosas, e até a sabotar a produção das empresas com regulamentos, exigências, inspeções, multas e bloqueios. Hábitos que os países ricos e produtivos se podem dar ao luxo, mas que por cá apenas estragam. Assim não admira a falta de empregos.

Quando se ouve dizer que são urgentes políticas de crescimento e emprego, isso significa em geral que o Estado deve voltar a gerar os tais empregos em que pouco se trabalha e mal se produz. Esta é a melhor maneira de disfarçar as dificuldades no curto prazo, enterrando o país. Típica política eleitoral.

A conclusão é que apenas as empresas geram empregos verdadeiros. Para os promover, o que o Estado deve fazer é sair do caminho e deixar fazer. Eliminar impostos, bloqueios, fiscais, proibições e tantas outras políticas que sacrificam o progresso e emprego no altar do politicamente correto. Foi após sucessivas políticas de desenvolvimento dessas que conseguimos chegar aos 17% de desemprego. O que arruinou o emprego e o crescimento não foi a distração do Estado, mas precisamente excesso de ativismo político.

Agora, após anos de distorção e enviesamento, está a ser difícil recuperar a economia. E só a sua recuperação pode gerar emprego. Mas o único caminho para isso é deixar fazer. É confiar nos empresários, mercados, trabalhadores e investimentos. É verdade que os nossos intelectuais não gostam desta abordagem, que insultam como neoliberal. Mas é bom lembrar que foram precisamente esses intelectuais que nos conduziram à crise, embora agora se tenham juntado hipocritamente ao coro de protestos.

A pouco e pouco, apesar da gritaria generalizada centrada em questões políticas, a reestruturação da economia está a fazer-se. São vários os sinais que mostram os empresários, mercados e trabalhadores, apesar do sofrimento, a mudar a máquina produtiva, dirigindo-a para atividades mais eficientes e dinâmicas. É um caminho muito difícil, mas não existe alternativa realista para a verdadeira criação de emprego.

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