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Sociedade amorfa

Domingo, 19 Fevereiro 2012
Sílvia Júlio
Sílvia Júlio
Jornalista

Que acordemos, que não sejamos cobardes, que não tenhamos medo de ser cidadãos inteiros, de meter a colher onde ela tem de ser metida, que participemos na construção de comunidades que zelem pelas pessoas.

A notícia de um homem que escravizou a mulher durante mais de 40 anos sem que ninguém tenha mexido uma palha é assustadora. A passividade de quem sabe ou desconfia de algo que está errado com alguém e não tenta mudar o rumo das coisas evidencia uma sociedade morta, sem cidadãos à séria, de gente inerte, irresponsável que não quer saber do que se passa a centímetros de distância do seu nariz.

É revoltante e angustiante saber que um familiar ou um vizinho ou uma autoridade não tenha querido saber mais sobre aquele caso. Não é preciso ser nenhum especialista para saber que as vítimas negam os maus tratos que sofrem e tentam até desculpar quem as agride, pensando que são elas as culpadas daquilo que lhes está a acontecer.

Ninguém dava por falta da senhora escravizada? E quando era avistada, ninguém via o rosto de sofrimento daquela mulher? Ninguém estranhava nada de nada? Como é possível tal situação acontecer sem que ninguém se tenha incomodado de verdade?

Este (mau) exemplo vem mostrar-nos que todos devemos ser responsáveis uns pelos outros – e temos a nossa quota-parte de culpa quando ficamos no nosso cantinho sem nos preocuparmos com aquilo que acontece fora das paredes das nossas casas. Como cidadãos temos direitos mas também temos deveres. E todos temos o dever de olhar com olhos de ver – e não com olhos de quem não quer ser incomodado – para o que está à nossa volta.

Que acordemos, que não sejamos cobardes, que não tenhamos medo de ser cidadãos inteiros, de meter a colher onde ela tem de ser metida, que participemos na construção de comunidades que zelem pelas pessoas.

Que se faça uma reflexão (e se atue depois) sobre esta sociedade amorfa que nada faz perante o que acha estranho. É esta mesma sociedade que cria adolescentes que assistem impávidos e serenos a situações de violência e até as colocam na Internet. É esta mesma sociedade que não estranha não ver um vizinho há uns dias e que, afinal, até já está morto em casa. É esta mesma sociedade que deixou que uma mulher fosse escravizada mais de quatro décadas...

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